“Estamos em quatro continentes e em vários mercados, mais de 15”

 

O intercâmbio ibérico continua forte porque os empresários sabem adaptar-se e vencer as condições adversas do mercado, diz a Câmara de Comércio Luso-Espanhola. A Logoplaste é a 3.ª maior transformadora de plástico rígido da Europa e está no top 10 mundial do setor de embalagens. A expansão começou em Espanha e hoje 80% da sua faturação vem do exterior. O CEO da empresa falou da sua estratégia

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

34731833Filipe de Botton, ainda recentemente falámos sobre a experiência da expansão para aquilo que hoje é a Logoplaste, uma das dez maiores do mundo na produção de embalagens de plástico rígido. Desde a última vez em que falámos havia já no horizonte alguns problemas, algum arrefecimento em termos internacionais que, entretanto, vieram a acentuar-se. Sei que abriram duas fábricas, uma na Escócia, outra nos Estados Unidos. Fale-me das novidades da Logoplaste neste contexto geral.

Filipe de Botton (F.B.) – Em termos dos 16 países onde estamos – e hoje  estamos em quatro continentes, portanto começamos a ter uma ideia bastante alargada de como vai o consumo, como vão as economias do mundo real -, talvez os dois onde  sintamos um notório abrandamento sejam, infelizmente, Portugal e o Brasil, o que é sobejamente conhecido. Os outros estão com uma expansão significativa, quer na América do Norte quer na Europa, de uma forma geral. A Espanha é um bom exemplo de que, independentemente de uma situação política diferente…

Sim. E ainda não resolvida, não é?

… e inconclusiva do ponto de vista do consumo, temos sentido um crescimento relativamente acentuado, muito perto dos dois dígitos nos primeiros três meses de 2016. Portanto, claramente, Portugal e o Brasil são os patinhos feios neste momento em termos de crescimento.

Via como muito interessante e desejável a expansão e a consolidação da presença da Logoplaste na zona NAFTA, ou seja, no Canadá, EUA e México. Efetivamente, apostou em mais uma fábrica nos Estados Unidos e vai continuar.

Apostámos e continua a ser a nossa grande aposta.

Lembra-se de que falava de dez fábricas e faria mais sentido, para si, passar para 20 nesse espaço do que ir, por exemplo, para a China.

Mais do que mais sentido, é a estratégia clara. Penso que [isto] é verdade em termos empresariais para qualquer organização ou empresa: o importante é a previsibilidade, é a estabilidade. Por exemplo, em Portugal temos tido alguns problemas em manter essa estabilidade e em conseguir prever um quadro de referências que seja inequívoco para os próximos quatro, cinco anos, que é algo que falta aos empresários, que é eles poderem prever. Temos de gerir dentro de um ambiente de previsibilidade, que é o que temos na América do Norte.

Pois.

Ali, é um mercado maduro, estável,  onde as coisas são perfeitamente previsíveis, onde as regras são claras – não há surpresas, não há alterações fiscais, legislativas, laborais ao longo do tempo – e isso é que faz a grande diferença e que permite investir num mercado de mais de 300 milhões de consumidores – e não de habitantes, porque às vezes fala–se de habitantes dos países mas que, no entanto…

Não têm poder de compra, claro.

… não têm poder aquisitivo -, e é um mercado em franca expansão. A economia americana pode crescer mais ou menos, mas tem vindo a crescer nos últimos anos de forma sempre positiva e assim se prevê que se mantenha nos próximos anos.

Ter havido uma produção ligeiramente inferior, no ano passado, da Logoplaste em Portugal teve já que ver com riscos de imprevisibilidade de qual era o futuro político?

Acho que há uma situação notória em Portugal que é um aumento da carga fiscal brutal do ponto de vista indireto. Talvez a nível de impostos diretos não tenha havido esse crescimento e até, enfim, se tenta mostrar alguma…

Algum alívio, sim.

…evolução, mas o que é brutal é o crescimento da carga fiscal indireta, que está claramente a ter um impacto no consumo. E quem achar que não vai ser [esse] o facto basta ver o que se passa. Recentemente, com o tema dos camionistas, este tema do gasóleo, que o senhor ministro da Economia pede para os camionistas se abastecerem em Portugal e que se vê que as grandes empresas abastecem mais de 80% dos seus camiões em Espanha. Ao fim e ao cabo, não só estamos a aumentar brutalmente a imposição indireta como estamos a desviar receitas fiscais portuguesas para Espanha neste caso concreto.

34523068Gabriel Chimeno, da Câmara de Comércio e Indústria Luso–Espanhola (CCILE), vê com preocupação também ou como um problema que poderá ser ultrapassado estas dificuldades, este abrandamento que se sente nos últimos meses e que ainda não dá sinais de estar em viragem positiva na economia portuguesa?

Gabriel Chimeno (G.C.) – Efetiva-mente, o abrandamento está aí e essa preocupação penso que existe, e os empresários estão muito atentos não só sobre isto mas também sobre o abrandamento internacional.

Em Espanha também se faz sentir?

Ainda não se sente nos números que mostram as estatísticas e os dados que se apresentam ainda são muito positivos. O crescimento é forte nos últimos 12 meses consecutivos, no sentido em que, inclusivamente, nos números de janeiro ainda continua a ser significativo.

Se me permite, mesmo com uma crise política que não se resolve há três meses em Espanha.

Eu penso que quando estas crises políticas acontecem os empresários seguem com a vida deles. Eles jogam com as regras que existem agora, que há governo ou não há governo. Bom! Pois teremos de atuar nesse ambiente. Penso que as empresas, que são empresas dinâmicas, se adaptam a esta situação e ao fim do dia continuam a funcionar.

E como é que esta conjuntura se reflete no trabalho da CCILE aqui entre nós?

Basicamente, assim que se deu este ambiente menos claro, as empresas tomaram atitudes menos agressivas, logicamente.

Mais defensivas.

Mais defensivas, exatamente. A internacionalização é uma estratégia mais agressiva, menos defensiva e, nestes casos, as empresas tendem a manter uma atitude menos expansionista e, como é lógico, possivelmente adiam alguns dos planos de internacionalização. Isso acontece. Ainda, diria eu, não se nota de uma forma muito significativa, mas se isto continuasse, se esta dinâmica continuasse nos próximos meses, claro que seria muito mau para as [empresas].

Filipe, o que é que está na sua agenda perante esta situação no nosso país? E na sua estratégia como é que quer assegurar a continuidade da expansão da Logoplaste e o seu papel como uma das dez maiores na produção de embalagens de plástico duro?

F.B. – Cada vez mais focando-nos… Quando falava há pouco na China, nós não vamos para a China. E porquê? Porque estamos em quatro continentes, em vários mercados, mais de 15, mas estamos em dois grandes mercados, que é o  americano – a América como um todo: a América do Norte, Canadá, Estados Unidos, México e Brasil; portanto, cobrimos o grosso da América -, e estamos na Europa, de Portugal até à Rússia. Na brincadeira, costumamos dizer que estamos do cabo da Roca até Vladivostok, ou seja, cobrimos de facto os fusos horários de…

Lembra-se daquela ideia de – não sei se era de De Gaulle – da Europa, justamente, do cabo da Roca até aos Urais?

Exatamente. Neste momento, passamos os Urais [risos], vamos ali até Vladivostok. Enfim, não a Rússia como um todo. E é aí que nos deveremos focar. Vemos que do ponto de vista do negócio – e cada caso é um caso e cada empresa terá a sua estratégia – as empresas portuguesas, de uma forma geral, são cada vez mais empresas de valor acrescentado. O setor dos têxteis é um bom exemplo em Portugal de um setor que há… desde que eu me lembro, desde [que eu andava] na universidade, que estava a morrer, e que continua pesar de forma muito significativa no PIB e nas exportações do PIB português, porque soube reinventar-se ao longo dos anos.

Recorda-se que o Relatório Porter dizia justamente isso, que tinha toda a margem para se reinventar.

E reinventou-se. Não vou falar do calçado, que é o mais conhecido, mas do próprio setor dos têxteis.

Dos têxteis, sim.

Hoje, grande parte dos nossos têxteis são técnicos, ou seja, têxteis que  conseguimos reinventar. E se nós conseguimos ter em Espanha, se a memória não me falha, cerca de 25% das nossas exportações são destinadas a Espanha, que é um mercado que, pelo facto de estar em crescimento, nos ajuda e puxa pelo nosso setor exportador; se nós conseguimos exportar para a Alemanha, se conseguimos exportar para a França, o que demonstramos é que as nossas empresas têm capacidade, têm competências, têm produto para vender para os mercados mais exigentes.

Claro.

E daí ser fácil de entender que nós estamos muito pouco presentes, por exemplo, no mercado norte-americano, que é um mercado sedento de produtos como os portugueses. Eu diria que as empresas portuguesas teriam alguma facilidade de penetração no mercado americano, quer pelas suas competências quer pela qualidade dos recursos portugueses. De facto, os portugueses são muito bons e têm grandes possibilidades e facilidades de interagir – nós temos uma comunidade nos Estados Unidos, a comunidade portuguesa, a diáspora é muito alargada. Em alguns estados, como a Califórnia, temos cerca de 500 mil portugueses que vivem na Califórnia. Portanto, existe, ainda por cima, uma grande facilidade de interação e é um mercado que eu diria que espera por Portugal.

E tem uma grande capacidade de absorção, evidentemente.

Claro que sim.

E está, de facto, muito pouco batido. O nosso comércio internacional tem um peso ainda…

Insignificante, quer na exportação quer na internacionalização. Que são dois temas diferentes e ambos deveriam ser abordados. Portanto, vale a pena olhar para esses mercados.

 

Filipe de Botton (à esquerda) revelou que, ao contrário de Portugal, em Espanha o consumo e os resultados da Logoplaste continuam a crescer. Gabriel Chimeno (ao centro) defendeu que não há resistência à entrada de empresas portuguesas em Espanha. António Perez Metelo (à direita) moderou a conversa sobre a Economia Ibérica

Filipe de Botton (à esquerda) revelou que, ao contrário de Portugal, em Espanha o consumo e os resultados da Logoplaste continuam a crescer. Gabriel Chimeno (à direita) defendeu que não há resistência à entrada de empresas portuguesas em Espanha.

Mas falando noutra geografia, na União Europeia, neste momento sente-se como que uma fratura entre os países do Leste numa série de temas em que seguem a sua própria via e uma visão diferente daqueles 12, 15 países que constituíam “a velha Europa”. No seu ramo, há diferenciação ou, do ponto de vista das fábricas e do relacionamento com os clientes, não há diferença entre uma parte e outra da Europa?

Eu faço uma grande distinção entre o que é o mundo político, o mundo cultural, do mundo dos negócios.

E isso é uma chave de leitura muito importante, não é? Distinguir uma coisa e outra.

Ou seja, existem leis para serem respeitadas, existem culturas que têm de ser respeitadas – “em Roma, sê romano” – e que obrigam a que, quando vamos para um novo país, temos de nos adaptar ao que são as leis locais ou ao que é a cultura local. Eu não quero mudar, enfim, não posso ter aqui um espírito missionário, em que vou para a República Checa ou para a Ucrânia querer que eles falem português. Temos de ter  um entendimento claro, que é: se queremos estar noutros países, temos de nos adaptar às regras dos outros países. Mas eu distingo claramente o que é o mundo dos negócios, que tem as suas regras e que se continua a desenvolver e que tem uma proximidade e uma similitude entre os vários mercados que é enorme, e aquilo que é o mundo da política, com o maior respeito, e o mundo da cultura, em que tem de se ter um enorme respeito por ela, que é outro tema. São dois temas completamente diferentes. E nós, empresários, quando estamos no nosso papel de empresários, é a este segundo vetor que  temos de nos adequar e não ao primeiro.

Notei que insiste muito nas economias amadurecidas como tendo uma grande capacidade de expansão para a sua empresa. Eu pergunto-me: porque é que se restringe ao Brasil, sendo certo que há esforços – vejo o AICEP a esforçar-se em relação ao México, à Colômbia,  ao Chile, etc. -, porquê, justamente, sua presença no Brasil e não uma presença mais forte na América Latina?

Bom, primeiro, o Brasil representa 70% da economia da América Latina, portanto, quando se está no Brasil, está-se praticamente na América Latina, com respeito pelos outros países. Segundo, é uma questão histórica: em 1992, quando começámos a internacionalizar-nos, o Brasil surgiu pouco depois, até por questões de afinidades familiares, porque o meu pai é brasileiro. Por isso facilitou o contacto e o desenvolvimento no Brasil.

No Rio Grande do Sul, não é?

Não, é em São Paulo. Agora, se eu  em 1994, quando investimos no Brasil, soubesse o que sei hoje, em 2016, provavelmente, com o maior respeito pelo pai, que é brasileiro, e por todos os brasileiros, que eu adoro, não teria investido no Brasil. É um país que é o oposto de tudo aquilo que eu definia como previsibilidade, como estabilidade…

É volatilidade completa, não é?

Sempre foi. É aquele lado sambístico, [que] tem um reflexo, de facto, nos negócios também. Agora, isto é como tudo na vida: à segunda-feira toda a gente acerta na lotaria; o difícil é acertar à sexta-feira, quando se compra o bilhete.

E, portanto, as suas apostas são nestes dois campos. Já nem lhe pergunto por África, porque suponho que em África é muito mais difícil de entrar.

Repare, nós somos uma empresa portuguesa, uma PME internacional. Uma empresa que vende 500 milhões de euros. É uma PME no mercado internacional. Portanto, temos de nos focar. E temos de nos focar em dois grandes mercados, que representam cerca de 800 milhões de consumidores, entre a Europa e a América do Norte…

Com poder de compra.

Com grande poder de compra.

Muito importantes, do ponto de vista global, não é?

Sem dúvida. No caso do Brasil, estamos lá e mantemo-nos lá – portanto, reduzimos e concentrámo–nos, focámo-nos em termos dos custos, pusemos a empresa claramente o mais ajustada possível ao mercado. Mas, se me pergunta se proativamente vou continuar a investir no Brasil, dir-lhe-ei que não.

Pois estão a aguentar, digamos assim.

Mais do que aguentar, é importante estrategicamente para acompanhar os nossos parceiros. É um mercado onde se aprende também bastante face, depois, a outras geografias. As dificuldades, de facto, têm esse lado de aprender o que não se deve fazer. Tem pessoas, recursos humanos extremamente válidos que nós temos estado a convidar para virem para outras geografias. Enfim! Acho que temos de olhar sempre para o lado meio cheio do copo e não para o lado meio vazio.

Claro. Do ponto de vista empresarial, só se pode fazer isso, senão não faz sentido.

Claro.

Filipe de Botton (ao centro), CEO da Logoplaste, e Gabriel Chimeno (à direita), da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, aceitaram partilhar o seu know-how na terceira ronda da Economia Ibérica.

Filipe de Botton (ao centro), CEO da Logoplaste, e Gabriel Chimeno (à direita), da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, aceitaram partilhar o seu know-how na terceira ronda da Economia Ibérica. António Perez Metelo (à esquerda) moderou a conversa.

Gabriel, nestas entrevistas torna-se claro que há sempre uma relação muito particular entre um país mais pequeno e uma economia seis vezes maior ao lado. Houve um grande impulso de investimentos espanhóis cá que abrandou, não é? O que é que a Câmara sente dessa interpenetração das duas economias?

G.C. – Eu sinto que a interpenetração das economias continua. Nunca houve tanto intercâmbio como no ano passado. Os valores, os montantes crescem de ano para ano.

É muito conhecida a questão a nível financeiro. Mas eu pergunto, na economia não financeira, na economia real, o que é que nos pode dizer sobre isso?

Na economia real, [a interpenetração] continua a crescer a cada ano [que passa]. As exportações portuguesas para Espanha, no ano passado, cresceram 5%, o que para uma relação já consolidada e madura é um crescimento importante.

Puxadas pela procura, que se reanimou em Espanha.

Claramente. Puxadas pela procura e puxadas também pela postura das empresas portuguesas, muito mais dedicadas à exportação, como temos visto nos últimos anos. Eu antevejo que isso vai continuar, os mercados cada vez vão estar mais próximos e continua a haver muita relação económica entre a Espanha e Portugal. Se calhar, as empresas maiores já deram esse passo no passado mas em relação às empresas pequenas ou médias do mercado [português], estão a dar esse passo. E logicamente o mercado mais próximo, como é Espanha para Portugal, ou vice-versa, é o primeiro passo na internacionalização.

Embora aqui se tenha feito eco de que há alguma resistência à entrada de empresas portuguesas em Espanha.

Sou da opinião de que isso não existe. Haverá resistência perante qualquer novo player. Se uma empresa da Galiza também quiser entrar num mercado já estabelecido da Andaluzia, vai ter alguma dificuldade porque logicamente os operadores daquele mercado estarão fortes para se defender.

E não falemos na Catalunha, não é? [risos].

Ou na Catalunha, é igual. Afinal, entrar num novo mercado é muito difícil. O Filipe sabe isso, tem de procurar o seu espaço nos mercados novos e, portanto, [tem de] concorrer [com outros]. E, hoje em dia, nos mercados maduros, a concorrência é forte. Portanto, eu não penso que exista uma postura contra as empresas portuguesas.

Especificamente.

Penso que é uma postura de mercado e, aí, o mercado é difícil.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens