“A Cepsa é a mais portuguesa das empresas espanholas”

No que toca à atuação das petrolíferas, o papel da Câmara de Comércio Luso-Espanhola é menos o de mediar e mais o de esclarecer os seus associados sobre o setor em Portugal. Isso mesmo confirmou a Cepsa, empresa espanhola que, há 53 anos, não precisou de mediações para entrar em Portugal: por aqui começou a sua expansão, aqui quer consolidar a sua presença e, entretanto, já chegou a 80 países

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

cRuth Breitenfeld, vice-presidente da Cepsa Portuguesa, Luisa Cinca, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCILE). Ruth, para a Cepsa, multinacional presente em 80 países, qual é a importância que tem Portugal?

Ruth Breitenfeld (R.B.) – Por um lado, Portugal foi o primeiro país pelo qual a Cepsa começou a sua internacionalização.

Foi em 63, não foi?

Foi em 1963. Eu já tinha 1 ano. [risos]. A Cepsa decidiu começar a sua internacionalização por aqui e eu considero a Cepsa a mais portuguesa das empresas espanholas, porque realmente tem uma vocação de futuro em Portugal. Estamos há mais de 50 anos em Portugal e queremos ficar, pelo menos, outros 50 ou muito mais. É nesse sentido que estamos a trabalhar e a definir as nossas estratégias de crescimento. Entretanto, a Cepsa foi mudando ao longo dos anos, foi evoluindo e foi crescendo. Nos anos 1980 começa a sua vertente na área da exploração. Começa também, em Portugal, a distribuição de lubrificantes, cria o seu primeiro posto de abastecimento, na altura em Macedo de Cavaleiros, no final dos anos 1980, creio. Espero não me enganar na data.

E depois compraram duas redes.

E depois cresceu, de forma bastante suportada, comprando duas redes – a da Elf e a da Total.

Pois. Têm uma presença visível.

Sim. Eu diria que estamos em mais de meio milhão de lares portugueses e não só através dos nossos combustíveis. É uma vertente interessante, mais internacional da Cepsa.

São os produtos químicos.

Exatamente.

Que é uma coisa muito pouco conhecida, curiosamente.

É verdade.

Fale-nos disso, porque é importantíssima essa produção da Cepsa, à escala mundial até.

À escala mundial e é um elemento de enorme orgulho, que nos faz sentir muito bem: pensar que a Cepsa é líder mundial na produção da matéria-prima LAB, que é o que é utilizado para detergentes biodegradáveis. E é realmente líder mundial, o que significa que uma em cada cinco lavagens de máquina é feita com produtos Cepsa. Sabias? [risos].

bLuisa Cinca (L.C.) – Por acaso, não sabia.

Eu não fazia a mínima ideia. À CCILE queria perguntar: empresas desta dimensão não passam por uma mediação ou facilitação de negócios da câmara, não é?

L.C. – É verdade. Não precisam tanto do apoio da câmara.

Mas o setor da energia é muito importante para a CCILE.

É. O setor energético tem sido muito importante para a câmara. A CCILE, nos últimos anos, tem feito vários seminários sobre o setor energético para esclarecer os sócios. Porque o sistema é complexo e o panorama é diferente nos dois países e os nossos sócios precisam de esclarecimentos. Neste sentido, o papel da câmara tem sido mais o de esclarecimento e de prestar informação quanto ao setor energético em Portugal.

Mas ultimamente há maior coordenação dos dois governos para coisas do interesse comum.

Efetivamente tem sido feito um esforço enorme por parte dos dois governos em unificar, um bocado, as políticas e os sistemas.

A nível do gás, da produção de eletricidade, das conexões com o Magrebe e com a França, não é?

Sim, o que nem sempre é fácil porque é um setor muito complexo.

E de grandes interesses. Estamos a falar, Ruth, de uma empresa cujo volume de negócios é de 17 mil milhões.

R.B. – Pois, é muito. Naturalmente.

Um décimo do PIB de Portugal, com mil milhões de volume de negócios em Portugal, certo?

Sim.

Fale-nos da situação do negócio em Portugal.

A nossa estratégia em Portugal é crescer de forma sustentada. Não queremos quantidade a todo o custo, queremos qualidade. E qualidade de serviço ao nosso cliente. Portanto, queremos apostar em produtos tecnológicos, que tragam um valor acrescido àquilo que o cliente procura. O nosso cliente procura qualidade, não procura só quantidade.

Portanto, está a valorizar a parte dos químicos, não é? Que são 30%.

E a parte dos combustíveis, em que fazemos investigação e temos produtos muito fortes, como o Optima, por exemplo, que é um combustível aditivado que tem benefícios para os motores que o utilizam. [Falo] dos nossos lubrificantes, em que também fazemos investigação de forma muito concentrada e em que temos produtos que saíram agora, produtos novos, por exemplo, para a área da Marinha e que são lubrificantes que são desenvolvidos e estudados pela Cepsa. Também na vertente de otimização e de busca de sinergias temos um princípio que eu acho essencial, que é o da melhoria contínua. Para além do princípio, obviamente, subjacente a tudo isto, que é o da segurança, que as petrolíferas têm sempre de forma muito clara e a Cepsa especialmente. Temos o princípio de melhoria contínua que leva a que não estejamos parados na forma como desenvolvemos o nosso negócio.

Está a falar da melhoria da qualidade dos produtos, é isso?

Dos produtos, do serviço que prestamos, da forma como trabalhamos, sempre à procura de melhores soluções no dia-a-dia e nos produtos.

Mas imagino que as outras petrolíferas procuram fazer o mesmo, no sentido de investir na inovação, etc.

Certamente.

Que ambição tem de aumentar a quota no nosso país e em Espanha?

O nosso objetivo é aumentar a quota e crescer sempre ligeiramente acima do mercado. Temos, neste momento, uma perspetiva de crescimento médio, a nível ibérico, na ordem dos 2% e queremos crescer ligeiramente acima disso. E quando eu digo que apostamos na qualidade e nos serviços, na inovação dos nossos produtos, efetivamente todas as outras companhias também o farão, mas nós consideramos que estamos na vanguarda dessa inovação por aquilo que oferecemos aos nossos clientes. E temos um elemento essencial, que há quem goste de referir como recursos (eu não gosto): temos as pessoas que trabalham connosco. A nossa equipa. Todos nós fazemos a diferença, entendo eu, na forma como lidamos com o cliente e como levamos os nossos produtos até às suas casas e aos seus negócios.

Tem algum desses centros de investigação em Portugal?

Temos a instalação de Matosinhos, que é certificada a vários níveis.

Que é a mais antiga, não é?

É a mais antiga – que nasce em 1966, creio – e que é, neste momento, uma instalação de ponta, em termos tecnológicos. Os nossos especialistas em Matosinhos já ganharam vários prémios a nível interno pelo aporte que dão nesta área. Há uma partilha de boas práticas num sentido e noutro. E também aí estamos orgulhosamente centrados na zona Norte.

Luisa, este setor é importante no cabaz de trocas entre os dois países. Quer fazer o ponto de situação possível dos primeiros quatro meses do ano?

L.C. – Claro. O ano passado, portanto 2015, já foi melhor do que 2014. Mas essa melhoria foi pouco expressiva.

Porque a crise teve grande repercussão negativa nas trocas, não é?

Exatamente, ficaram reduzidas. Mas já o ano passado foi um ano que inverteu a tendência da redução das trocas comerciais. Neste momento, temos dados dos quatro primeiros meses do ano: de janeiro a abril, vemos um aumento significativo das trocas comerciais. Não sabemos muito bem agora, com a situação…

Do brexit.

Do brexit e não só, das eleições em Espanha. [Não sabemos] o que é que vai acontecer no resto do ano, mas a tendência é claramente de aumento. Quer dizer que, pelo segundo ano consecutivo, estamos a verificar um aumento das trocas comerciais e esperamos que se mantenha durante o resto do ano.

Ruth Breitenfeld (à esquerda), vice-presidente da Cepsa Portuguesa, deu a conhecer o inovador modelo de gestão da sua empresa e os excelentes resultados dele provenientes. Luisa Cinca, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, falou do setor energético, do desemprego e da recuperação do mercado ibérico

Ruth Breitenfeld (à esquerda), vice-presidente da Cepsa Portuguesa, deu a conhecer o inovador modelo de gestão da sua empresa e os excelentes resultados dele provenientes. Luisa Cinca, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, falou do setor energético, do desemprego e da recuperação do mercado ibérico

Ruth, a Cepsa sente-se bem-vinda em Portugal?

R.B. – Sente-se muito bem-vinda. Aliás, há um episódio interessante que aconteceu há menos de um mês, numa conferência sobre negócios internacionais. Estava um empresário e advogado português que me disse: “Ah, sabe Ruth? Eu, quando vou a Portugal, só abasteço em empresas portuguesas.” E eu fiquei com um ar… fiquei calada, para variar, não disse nada. E ele disse: “Sim, sim. Eu só abasteço na Petrogal e na Cepsa. Porque, para mim, a Cepsa é uma empresa portuguesa, está em Portugal há mais de 50 anos e eu tenho muito orgulho em abastecer na Cepsa.” Ficou o meu cliente favorito, quase. [risos]. Mas sentimo-nos muito bem-vindos. Por várias razões. Repare, o nosso negócio, que não é só de combustíveis, mesmo em Portugal… Por exemplo, o negócio de betumes, em que investimos e inovamos também com o produto Elaster e com os betumes-borracha.

Pois, há uma percentagem enorme do pavimento das nossas autoestradas…

Um em cada três quilómetros é nosso, é produto Cepsa. E consideramos que tem características de segurança, de manutenção, de resiliência e de resistência muito superiores. E são uma referência. O Elaster, por exemplo, é procurado nas obras públicas, porque efetivamente tem uma qualidade e uma inovação tecnológica extraordinárias. E temos o betume-borracha, por exemplo, com o qual já reciclámos mais de dois milhões de pneus. Portanto, tudo isto faz que sejamos uma empresa bem-vinda.

Para si, estar na União Europeia é estar em casa.

Sim.

Como é que a Cepsa vê esta separação do Reino Unido? Que consequências poderá ter para a Cepsa?

Bem, eu não sei como é que a Cepsa vê esta vertente política, porque, no fundo, o que interessa às empresas é ter uma segurança no quadro jurídico em que operam, uma segurança no quadro fiscal, é poderem ter elementos que permitam que a sua estratégia seja previsível, não é?

Sim, porque a Cepsa está desde o Canadá até à China, não é?

Exatamente.

E para cada sítio tem de haver uma forma de relacionamento claro. É o que se espera no Reino Unido.

Obviamente. E temos também uma unidade no Reino Unido, que esperamos que continue a atuar dentro do quadro legal que for definido… Vamos ver o que é que resulta dali. Agora, uma empresa tem de ter a capacidade de se manter firme, com alguma independência daquilo que o poder político faz ou diz. Temos de nos adaptar.

É isso que acontece em Espanha, nos últimos meses, não é?

Efetivamente. Quer dizer, o negócio tem de prosseguir.

Mas eu sinto-a muito otimista.

É a minha natureza, também.

Mas os economistas dizem-nos que tudo isto pode levar, pelo menos, a um ligeiro abrandamento no espaço europeu. Isso não faz rever as projeções da Cepsa?

Estamos muito atentos a tudo e temos uma característica interessante para uma empresa da nossa dimensão – que não faz parte dos major -, que é: temos uma cadeia de valor totalmente integrada. Ou seja, estamos no negócio todo do petróleo e do gás, desde a exploração e produção até à comercialização. Estamos em toda a cadeia de valor do negócio.

Segundo vi, estão em 47 talhões, digamos assim, de exploração.

Isso é só a parte de exploração e produção. Depois estamos em 20 países na área da petroquímica. Na área da comercialização e refinação, estamos em Portugal e em Espanha e temos aí também a procura de expansão. Vamos ver como é que corre e para onde nos leva. Mas o facto de termos esta estrutura também nos permite ter a capacidade e resiliência para determinados embates. Sofremos isso com a quebra do preço do crude, por exemplo, em 2014, que foi histórica. E a Cepsa conseguiu passar por esses momentos fortalecida. Temos uma característica que também acho muito interessante, que é o facto de termos um acionista único, desde 2011.

Pois é. De Abu Dhabi.

Abu Dhabi, exatamente. É o IPIC, International Petroleum Investment Company, que é o fundo soberano de Abu Dhabi, que detém a 100% a Cepsa. Aliás, no portfólio do IPIC é a única empresa detida a 100% e é a única que tem toda a cadeia de valor.

O que garante uma grande estabilidade acionista, não é?

Eu acho que sim. E é um acionista que acredita na vertente tecnológica e comercial da Cepsa. E isso tem–se demonstrado pela transformação grande que houve, especialmente desde 2011. Transformação até ao nível dos nossos escritórios e da forma como trabalhamos. A Luisa, ontem, esteve connosco…

L.C. – Fui visitar o escritório.

R.B. – Viu a mudança que se operou.

e

Luisa Cinca, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (à direita), e Ruth Breitenfeld, administradora da Cepsa Portuguesa, foram as convidadas de António Perez Metelo (à esquerda) em mais uma edição da Economia Ibérica

Em que sentido?

A Cepsa está, há dois anos, em Madrid, na Torre Foster, agora Torre Cepsa, com um projeto que, na altura, se denominou Hadi, que significa o farol que nos guia. E esse projeto implicou uma nova forma de trabalhar, com a tecnologia mais avançada, com espaços absolutamente abertos, sem gabinetes. Há salas de reuniões, que são marcadas de forma escrupulosa e em que se tem de fazer o check-in e o check–out. É um espaço sem papel, sem mesas: há só uma percentagem muito pouca de mesas fixas. Portanto, as pessoas entram e sentam-se onde houver espaço, o que levou a uma mudança na forma de trabalhar extraordinária, uma interação entre as áreas muito construtiva e positiva.

E com grandes ganhos de produtividade.

Com grandes ganhos de produtividade, eu entendo que sim. E cá em Portugal tivemos oportunidade de fazer o mesmo. Desde dezembro que estamos num escritório que tem estas características e, realmente, a mudança de atitude das pessoas é extraordinária. De todos nós.

Mas há sempre o outro lado.

Sempre.

Um aumento de produtividade, evita aumentos de emprego. Que perspetiva de crescimento de emprego na Cepsa, em Portugal?

Nós testámos e otimizámos a nossa estrutura. Temos a estrutura que consideramos a adequada para desenvolver o nosso negócio.

São 620 pessoas, não é?

Somos 620 pessoas, distribuídas entre a Cepsa portuguesa e a Propel,  empresa que opera os postos de abastecimento de forma direta. E, neste momento, consideramos que temos um quadro estável e que nos permite fazer o nosso trabalho. Mas estamos atentos às necessidades que nos surjam e iremos ao mercado se for o caso. Neste momento, a perspetiva é de uma situação estável e que é aquela que nos permite otimizar os nossos recursos técnicos e às pessoas trabalharem de forma eficaz para o nosso negócio.

Na câmara, o que se fala do ponto de vista do crescimento de emprego nos dois países?

L.C. – O desemprego tem sido o maior problema que tem enfrentado a economia espanhola, porque as taxas de desemprego são muito complicadas. Em Portugal, a situação é diferente: temos uma taxa de desemprego muito mais reduzida.

Tudo é visto relativamente, não é?

Tudo é visto relativamente, sim. Mas, enfim, os números…

Em Portugal, em 2013, aquele pico de 17% era uma coisa nunca vista.

É verdade que a sociedade portuguesa não estava habituada a ter taxas de desemprego…

Enquanto, em Espanha, desde os anos 1980 que há mais de 20%.

É verdade. Efetivamente os últimos anos foram muito complicados para as empresas. Portanto, a maior parte delas teve de reduzir o número de pessoas, quando não reduzir mesmo de forma completa.

Porque o volume de negócios também se reduziu.

O volume de negócios baixou e as empresas tiveram de apertar o cinto de todas as formas. E os recursos humanos, às vezes, estavam sobredimensionados em relação às necessidades dessa empresa. Uma vez feito este trabalho, as empresas descobrem que, efetivamente, as suas estruturas estão equilibradas em relação às necessidades que têm. E, neste momento, também estamos a assistir a uma entrada de interessados na contratação de pessoal qualificado em Portugal. Até agora, víamos algumas empresas da consultoria internacional virem cá buscar recursos humanos para os levar para os centros europeus. Neste momento, estamos a verificar a entrada de determinadas empresas que recrutam um nível médio-alto de profissionais para ficarem cá. O país é visto como estável, está a crescer, já não tem intervenção estrangeira  em termos financeiros.

Ruth, há algum segmento do negócio, algum produto Cepsa no qual aposte para este ano de 2016?

R.B. – Nós apostamos muito na complementaridade dos nossos negócios e dos nossos produtos. Enten-demos que se os “levarmos”, como dizem os espanhóis, todos de uma determinada forma e dentro de uma estratégia acertada com a nossa casa-mãe, com a qual estamos absolutamente integrados, permite que uns produtos façam crescer os outros. Temos um enfoque grande na venda também, não só na nossa rede, em que, como lhe disse, apostamos muito nas parcerias que temos, na fidelização dos nossos clientes. Cerca de 50% dos nossos clientes já nos são fiéis e depois queremos que os outros também se tornem.

São os tais que acham que a Cepsa já é uma empresa portuguesa.

Já a sentem como uma empresa portuguesa. Temos parcerias, por exemplo, como o Deco Plus, o cartão Deco+, que tem tido um êxito fantástico e deu uma projeção muito interessante à Cepsa. Temos o  Porque EU Volto, que é o nosso programa de fidelização, que tem serviços muito interessantes para os nossos utilizadores. Agora, também noutras vertentes, como lhe disse: na vertente dos asfaltos e dos betumes, na vertente das vendas diretas, em que estamos disponíveis não só para os grandes distribuidores mas também para a pequena e média distribuição, na vertente dos cartões, todas as nossas áreas de negócio do gás e dos lubrificantes, em que também temos uma panóplia de produtos muito interessante, a Cepsa está disponível para dar o seu melhor, em cada momento, aos seus clientes.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens