Alqueva tem reserva de água para dois anos

Balanço. Alqueva atravessa seca com reservas a 70%. Empresários reconhecem que sem o acesso à água da albufeira neste ano seria muito complicado com produção inferior em 80%

 

O Alqueva está a enfrentar com nota positiva o seu stress test em cenário de seca severa. Apesar da conjuntura, “as reservas de água estão neste momento a 70%, com cerca de dois mil milhões de metros cúbicos de água”, revelou o presidente da EDIA, José Pedro Salema.
“A água em reserva é suficiente para mais de dois anos”, adiantou o responsável da entidade gestora do complexo de albufeiras, que falava num debate do ciclo Economia Ibérica, promovido pelo Banco Popular, com foco no agroalimentar.
O desafio mais importante do sistema do Alqueva é, no entanto, garantir que a água chega onde é necessária, percorrendo às vezes  centenas de quilómetros. Nesta frente, José Pedro Salema garante que no fim desta campanha “não houve nenhuma exploração das que estão ligadas ao sistema que tenha ficado sem água”.
Em causa está um perímetro de rega oficial de 120 mil hectares. Mas o Alqueva ajudou neste ano a regar mais 30 mil hectares, explico José Pedro Salema. Apesar de as comportas terem sido fechadas em 2002, as últimas barragens só foram concluídas em 2016, o que faz  que este tenha sido o primeiro ano com toda a estrutura a funcionar em pleno, acumulando uma situação de três anos de baixa pluviosidade.
“O Alqueva veio reforçar a importância de uma estratégia nacional para armazenar e distribuir água em quantidade e qualidade ”, considerou o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). Eduardo Oliveira e Sousa sustentou, por isso, que “o modelo deve ser copiado para outras regiões, embora não necessariamente com a mesma dimensão”. “Absolutamente crucial” é como o empresário Miguel Castelo Branco avalia o impacto do Alqueva na Herdade do Paço do Conde, que administra, em Baleizão, e na agricultura alentejana. Apesar de a herdade cultivar olival há mais de 100 anos, Miguel Albuquerque não hesita em calcular que se não fosse o acesso à água “a produção de olival baixaria entre 80 e 90%”.
Para lá das vantagens diretas, aquele empresário, que explora 12 sociedades, sublinha o efeito dinamizador do Alqueva na economia local e de uma nova forma de fazer agricultura com recurso às mais modernas tecnologias. Já para o agricultor espanhol Javier Parladé, o Alqueva foi mesmo a razão de ser do investimento de 50 milhões de euros no Alentejo. “Foi a água do Alqueva que nos trouxe para cá, porque na Andaluzia não havia possibilidade de fazer novo regadio”, explicou o engenheiro agrónomo que explora desde 2005 olival para produção de azeite a granel em Évora, Ferreira do Alentejo e Avis.
Administrador do Grupo Rabala, Javier Parladé acredita no futuro do setor do azeite em Portugal, considerando que o Alentejo tem neste momento uma oportunidade que lhe traz vantagens competitivas face a Espanha porque, ao contrário desta, tem água. “Agora é saber gerir a oportunidade”, diz.

Carla Aguiar (Texto)

Sara Matos/Global Imagens (Fotos)