Mário Pinheiro: “Temos capacidade para 1,5 milhões de garrafas de vinho”

A empresa que dirige só começou a produzir vinho em 2012, mas já exporta quase 500 mil garrafas para alguns dos mercados mais exigentes, como a Austrália. Mário Pinheiro apostou em mudar de vida há uma década e apostar nos vinhos brancos, uma paixão que já se vai misturando com as cores do tinto.

 

Como retrata a Ribafreixo e o seu negócio?
Esta empresa está localizada na Vidigueira e assenta a sua atividade na produção de uva e vinho a partir da Herdade do Moinho Branco. Tem a particularidade de ser um projeto de raiz . Eu não tinha tradição nesta área, trabalhava em tecnologias, vim para Portugal há 14 anos e decidi criar este projeto com um amigo engenheiro agrónomo, que é meu sócio. Não há muitas pessoas que têm oportunidade de fazer um projeto de raiz. Escolhi o clima que quis e foi o microclima da Vidigueira. Eu queria fazer essencialmente vinho branco. Houve um grande crescimento no consumo do vinho branco. As pessoas começaram a perceber que o vinho branco é melhor para o almoço.
Qual é o microclima da Vidigueira?
A serra do Mendro é a demarcação natural entre o Alto e Baixo Alentejo. A Vidigueira fica cá em baixo no sopé da serra. O clima é mediterrânico com muita continentalidade, o que faz o microclima. Os ventos estancam na serra. Por outro lado, existe uma grande amplitude térmica entre o dia e a noite, sendo que, em média, as temperaturas aqui são mais baixas do que na média da região. Pudemos também escolher um terreno com xisto, o que dá muita mineralidade aos vinhos. Os nossos vinhos são muito aromáticos e de longa duração.
Quantos hectares de vinha explora a Ribafreixo?
Temos 114 hectares com 90 vinhas. Recentemente plantámos mais três hectares. Queremos que seja um vinho especial, mas gostávamos de ter mais. Também fomos nós que escolhemos as castas, quase todas portuguesas e duas ibéricas, aragonês e alvarinho (galego e minhoto). Fizemos um verdadeiro alvarinho.
Desde quando estão a explorar?
Há uma década. Quem for à adega não acredita que isto foi feito só em dez anos. O projeto cresceu muito rapidamente. A única coisa que travou foi a natureza. As vinhas têm oito e dez anos. Retirámos a maior parte das vinhas mais velhas. Quando começámos, a nossa estratégia passava por ter 70% da produção dedicada ao vinho branco e 30% ao vinho tinto. Este ano vamos aumentar a produção de vinho tinto.
Quantos rótulos comercializam e como é que isso se traduz em vendas anuais?
A ideia inicial seria fazer só uma marca. Mas optámos por ter vinhos monocastas. Temos seis ou sete rótulos, mas todos eles são monocastas. A região da Vidigueira é DOC (Denominação de Origem Controlada). Temos o barrancôa, Pato Frio e Gáudio. Apesar de termos a casta alvarinho não podemos usar o nome, porque o alvarinho não pode ser considerado DOC na Vidigueira, não está na lista da região do Alentejo. O facto de termos várias marcas acaba por nos dar uma maior liberdade para trabalhar o mercado de exportação. No Japão, tenho em Osaka um distribuidor para o Pato Frio e em Tóquio outro distribuidor para a marca Gáudio. Consigo meter lá mais vinhos assim.
A produção é mais vocacionada para a exportação ou para o mercado nacional?
Nunca apostei muito no mercado nacional, a não ser no Algarve. Era tudo para exportar. A primeira pessoa que me chamou a atenção de que talvez não fosse a melhor opção foi o nosso enólogo. E isso fez-me pensar e rever a estratégia. Hoje trabalhamos com distribuidores regionais. Vendemos em cerca de 40% para o mercado nacional e 60% para exportação. O mercado nacional é muito importante.
É importante porquê?
Para consolidação das marcas. Por exemplo, acaba de acontecer uma feira de vinhos em Lisboa, onde estiveram os nossos vendedores. É mais fácil chegar ao mercado. Há uns anos, os vinhos brancos em Portugal eram péssimos. Hoje produzem-se vinhos maravilhosos.
Disse que o mercado nacional vale 40%. Qual a perspetiva de crescimento?
O crescimento da nossa empresa é devido, em parte, ao nosso esforço particular, mas também ao desenvolvimento do próprio mercado que está a crescer. Os consumidores de vinho branco pedem muito vinho novo.
E as exportações? Quais são os vossos mercados prioritários?
O mercado preferencial é a União Europeia, também porque é o mais fácil. Na UE vendemos para Irlanda, Inglaterra, Holanda, República Checa, Bélgica e temos  alguns contratos com grandes superfícies. Fora da UE vendemos para países tão diferentes como o Japão, Filipinas, Israel, China ou os Estados Unidos.
E como se distribuem as quotas de exportação?
Temos 30% a 40% de toda a exportação para a Austrália. Encontrámos um nicho de mercado e mandamos bastantes contentores para lá.
E planos de expansão?
Agora em novembro vamos começar a delinear a nossa estratégia para 2018. No vinho branco, vamos trabalhar mais o mercados norte-americano, e, no tinto, mais a China. Quanto mais sofisticado é o mercado mais consome vinho branco. Os Estados Unidos é um país muito grande e há muita coisa a fazer. Um cliente cativo é muito mais interessante do que ter um cliente novo. Eu, pessoalmente, gosto de trabalhar com clientes fidelizados. Claro que também apostamos em mercados novos e, às vezes, vão aparecendo oportunidades quando não se espera. Foi o caso do mercado australiano.
Tem planos para investir em mais vinha ou adega?
Ainda este ano investimos em mais três hectares. A nossa adega produziu o seu primeiro vinho em 2012. Temos capacidade para produzir um milhão e meio  de garrafas. Estamos a produzir 700 mil garrafas. Acabámos de investir em equipamento.
Quanto investiram?
Já investimos 10 milhões de euros.  Os subsídios comunitários foram muitíssimo importantes, tanto na agricultura como na adega. Os subsídios não contemplam a compra de propriedades. O financiamento foi em torno dos 25%.
Quanto é que essas 700 mil garrafas que estão a produzir rendem em volume de negócios?
Cerca de 1,8 milhões de euros. Este ano vamos aumentar, mas não vamos aumentar muito. Em todo o mundo houve uma quebra muito grande na produção de vinho por razões diversas. A Argentina está a comprar no Chile, a Nova Zelândia, a Austrália e a África do Sul também tiveram problemas. A França e a Itália sofreram com a geada, como nós, o que nos causou uma quebra de metade da produção. A geada apareceu nos dias críticos para a cultura. E também houve falta de polinização e, por isso,  muita vinha não tem uvas. Para o ano vamos ter mais abelhas para melhorar a polinização.
Mas, mesmo assim, perspetiva um crescimento?
Sim, vamos crescer, porque até ao ano passado ainda estávamos a vender uva. O nosso desígnio é ter um vinho de alta qualidade, com um rácio preço/qualidade muito bom, mas para isso temos de ter total controlo sobre a uva que usamos. Não quero passar do milhão e meio de garrafas. Qualidade e muita quantidade não se coaduna. E nós queremos vinhos de qualidade.