Miguel Gonçalves: “Tomate biológico é resposta à quebra de preços no setor ”

Miguel Gonçalves, Presidente da Alentejanices com Tomate

À frente da organização de produtores Alentejanices com Tomate, Miguel Gonçalves está a incentivar os agricultores a diversificarem para outras culturas, como amêndoa e nozes, para combater a baixa rentabilidade oferecida pelo tomate, devido à quebra de preços no mercado mundial.

O que é a Alentejanices com Tomate e qual o seu estatuto jurídico?
Somos uma sociedade comercial por quotas, mas temos o reconhecimento de organização de produtores, que nos é concedido pelo Estado, ao abrigo de uma diretiva comunitária. Para tal temos que reunir algumas características, como um determinado número de produtores e volume de vendas, entre outras condições.
É um nome invulgar. Alguma história que o justifique?
Nenhuma história em particular, apenas alguma dificuldade em escolher um nome. Nós começamos como Altol, em 1994. Só que depois do falecimento de alguns sócios e do abandono de outros, estavamos em risco de deixar de cumprir os critérios de organização de produtores e em  2015 criámos a Alentejanices.
E qual é a área de exploração? Quanto representa?
Nós começámos em 1994 com 17 produtores, comercializavamos 2. 300 toneladas de tomate no valor de 215 mil euros e cada produtor tinha uma média de dois hectares e meio. Uma década depois, em 2015, comercializámos 139 mil toneladas no valor de 10 milhões  de euros com 24 produtores e uma média de 58   hectares por produtor. Um aumento brutal da organização, tal como aconteceu em Portugal de forma geral.
O que mudou desde então?
Em 2016 ,primeiro ano após a nossa constituição, vendemos mais ou menos o mesmo: 10 milhões de euros e, mais ou menos, 125 mil toneladas e começámos a produzir tomate biológico. Temos 190 hectares de tomate biológico.
O que significa o tomate biológico em termos de valor?
Cerca de 9, 7 milhões de euros.
É mais caro produzir tomate biológico?
O tomate biológico vale o dobro do tomate tradicional em valor. É ligeiramente mais caro produzir porque não se podem usar produtos químicos e a produção é menor, também porque temos menos meios de combate aos problemas. Mas é um nicho de negócio muito procurado e que vale o dobro do preço.
É um nicho de mercado em Portugal ou sobretudo em Espanha?
Nós vendemos 80% para Espanha. Grande parte do tomate é agua e transportar água para muito longe é muito caro. Estamos em Elvas e temos aqui em Badajoz duas ou três grandes fábricas para onde escoamos a nossa produção. Também escoamos para a fábrica de  Mora.
Quanto é que representa cada mercado?
Dos dez milhões de euros, oito são exportações e o restante é o mercado nacional.
E os preços? Diferem em função dos mercados?
Os preços são iguais. O mercado espanhol no ano passado pagava um bocado mais. Este ano houve uma forte baixa de preços na contratação na região. É, aliás, uma tendência registada desde 2013. O tomate tem vindo a valer menos de ano para ano.
Porquê?
Há um excesso de oferta no mercado mundial. Segundo dados dos EUA houve um aumento de 10%  no stock e uma quebra de 5%  na retirada do tomate das fábricas. Isto está a provocar uma pressão para a  baixa de preços. O problema é que fazemos a base de concentrado de tomate comprado por outras empresasa que fazem a sua transformação. Com o excesso de produção, os compradores jogam na retranca, escolhem os melhores lotes e compram mais tarde.
Como vê o horizonte para esta cultura e a sua sustentabilidade?
Com bastante preocupação. Estamos a chegar a preços em que a rentabilidade da cultura está no limiar, senão mesmo em causa. A única solução é o que fizeram os Estados Unidos: reduziram a sua
produção em 10%. Ao contrário, nós não só não reduzimos, como ainda aumentámos. Se não conseguirmos uma concertação para reduzir a produção, podemos chegar a extremos na queda de preços.
Isso pode acontecer já este ano?
No total vamos produzir menos. Vamos fazer mais 30 ou 40 hectares de tomate biológico para os 240 hectares. Na cultura tradicional baixaremos para os 800. Isto tem a ver com a baixa de preços, mas também com a falta de água de algumas barragens.Está a ser um ano de seca e há pouca água.
Elvas é uma localização privilegiada. Há impacto da barragem Alqueva na vossa atividade?
Em Elvas não bombamos de Alqueva, mas das barragaem do Caia e de Veiros, que teve  restrições ao abstecimento, o mesmo se passando com Avrilongo, com fortes restrições.
Qual o perfil de produtores esta organização?
Em média os nossos produtores exploram  60 hectares, o que faz deles médios grandes. Na nossa região há dois tipos de produtores: os que se dedicam exclusivamente ao tomate e os que têm um leque diversificado de culturas. A nossa organização pediu, aliás, alargamento do seu reconhecimento para amêndoa. Já somos reconhecidos como OP para amêndoa e, até ao fim do ano, vamos pedir para nozes, pistachio, bróculos e pimento.
Tem objetivos de diversificação?
Exatamente. Queremos dar aos nossos produtores um leque de soluções de culturas para que eles possam encontrar diversificação e rentabilidade. Trata-se, no fundo, de cada um fazer as suas contas mas a nossa obrigação como OP é encontrar soluções de manutenção da rentabilidade.
Isso deve-se ao preço do tomate ou também à concorrência de  investidores estrangeiros ?
Realmente há pressão de investidores estrangeiros com novas culturas, mas não é por isso que estamo s a incentivar os agricultores a encontrar ourtras culturas. O tomate é muito consumidor de água e com os preços em baixa a rentabilidade também é fraca.
Têm investimentos planeados?
A  nossa missão é comercializar a produção dos sócios, dar asssitência técnica e alguma prestação de serviços na área da colheita. Temos feito investimentos na aquisição de máquinas colhedoras de tomate. Com a diversificação de cuturas provavelmente vamos ter de investir  em novos equipamentos.
Quanto prevêm investir?
Este ano previamos a compra de 6 máquinas  num total de 1,4 milhões de euros, mas provavavelmente vamos acabar por comprar apenas 3 máquinas num investimento total da ordem dos 600 mil euros.
Que  perspetivas para este ano?
Queremos acompanhar o mercado, aumentar a produção, mas o preço não é convidativo e não encoraja a aumentos de área.Penso que vai haver nos próximos anos reorganização da produção: uns vão para outras culturas, outros serão mais eficientes no tomate. Mas a área de tomate deverá estabilizar  nos 2400/2500 hectares.
Mas este setor é  líder de exportações em Portugal e é reconhecido também pela qualidade…
O problema é que há outras zonas que estão a aparecer  muito competitivas, como o Chile, com custos de produção mais baixos. No futuro ou há uma concertação para se chegar a um equilíbrio na quantidade  ou vai ter de se baixar muito a produção. Espero que consigamos ser eficientes para impedir isso.

Texto: Ana Maria Ramos e Carla Aguiar