Plano Nacional de Regadio moderniza rega de norte a sul

Política. Projeto para regar o país custa 530 milhões de euros e vai permitir a expansão da área de rega de Alqueva em mais 50 mil hectares

O Plano Nacional de Regadio, que prevê modernizar as áreas de rega desde Trás-os-Montes ao Algarve, vai também permitir a expansão do perímetro de rega de Alqueva em mais 50 mil hectares, passando a abranger 170 mil hectares, avançou o presidente da EDIA, José Pedro Salema. Em causa está um investimento da ordem dos 530 milhões de euros, metade do qual a ser financiado pelo Banco Europeu de Investimento.
Segundo José Pedro Salema, “as negociações estão muito bem encaminhadas e em fase de conclusão”, estimando-se que as primeiras áreas possam estar disponíveis no verão de 2019 e que até 2021 aconteça a expansão dos 50 mil  hectares de Alqueva. A EDIA é a entidade que está a liderar o processo de candidaturas no âmbito do Plano Nacional de Regadio.
O norte e o interior norte deverá ser a região mais beneficiada pelo plano, agora que a área sul tem mais  recursos hídricos.
Um projeto e uma decisão que não poderiam chegar em melhor altura, a julgar pelas palavras do presidente da CAP. “A situação de seca severa que estamos a viver é muito dramática”, considerou Eduardo Oliveira e Sousa, no debate realizado terça-feira, na sede do Banco Popular, sobre Alqueva.
“Há agricultores a passarem muito mal no país todo, desde a faixa interior norte a sul, como Trás–os-Montes, Beira, Portalegre”, justamente pela falta de acesso à água, exemplificou. O novo porta-voz da agricultura portuguesa lembrou que “este ano morreram animais devido à seca”.
Por essas razões, mas também devido ao facto de as alterações climatéricas tenderem a acentuar os fenómenos extremos, o presidente da CAP defende a necessidade de um plano estratégico de longo prazo para a agricultura, que tenha em conta a questão da água. Chamando a atenção para a região do Vale do Tejo – a de maior potencial agrícola do país – que “precisa de muita atenção e investimento”, Eduardo Oliveira e Sousa ressalvou também as carências de outras regiões como Mirandela ou o Norte alentejano.
UE subestima problema da água
“Se o país considerar a agricultura um setor estratégico, os problemas vão-se resolvendo.” Mas, lembrou, “é preciso que os nossos atores políticos saibam defender os nossos interesses”, nomeadamente junto das instâncias comunitárias, onde se começará a discutir uma nova reforma da Política Agrícola Comum e também o brexit.
“Estamos numa União Europeia cujos interesses dos países mais poderosos não percebem a necessidade da água, ou seja, as suas preocupações centram-se mais nas questões da qualidade da água do que da quantidade de água”, disse o líder da CAP.
Ao mesmo tempo, Eduardo Oliveira e Sousa mostrou-se algo receoso dos efeitos do brexit e da eventual redução da fatia do orçamento da Política Agrícola Comum (PAC) a canalizar para a agricultura portuguesa. “Vão ser sete cães a um osso”, vaticinou.
O presidente da CAP assume, a propósito, a necessidade de melhorar a divulgação e a comunicação das questões relacionadas com a agricultura, de modo a que elas sejam mais bem percecionadas pela opinião pública, bem como pelos decisores políticos.
Idêntico desafio é assumido pelo presidente da EDIA. Este lembrou que a propósito do projeto Alqueva vai à escola, desenvolvido em 2016, “era desolador ver o que os professores sabiam sobre o Alqueva”, não estando em condições de passar informação aos alunos sobre as possibilidades da região e novas formas de perspetivar o futuro.
Regadio combate fogos florestais
Um argumento de peso a favor da necessidade de um plano estratégico para o regadio é, de acordo com Eduardo Oliveira e Sousa, a relação entre a ausência de água e os fogos florestais.
“Vivemos este ano um ano terrível em matéria de fogos florestais, o que também tem que ver com regadio”, na medida em que “é preciso aumentar a capacidade de retirar rendimento da agricultura e a única forma de o fazer é criar alguma intensificação, o que só se faz com acesso a água”, considerou.
Para o presidente da CAP aquela é a fórmula de atrair mais gente, dinamizar as economias das regiões e impedir a desertificação do interior, “porque água é vida”.
No que diz respeito em concreto ao impacto de Alqueva na agricultura alentejana, os convidados do debate são unânimes em reconhecer que houve um aumento significativo da produtividade e rentabilidade bem como da diversidade de culturas, com grande destaque para o olival, a vinha e os frutos secos, sempre ou quase sempre com vocação exportadora.
É o caso da Herdade do Paço do Conde, que está a alargar a dimensão da adega para o dobro bem como a aumentar a plantação de olival e de vinha. Miguel Castelo Banco prevê entrar nos frutos secos em 2018, aumentando assim a já significativa diversificação de culturas.
Já a Herdade Monte da Sousa, administrada por Javier Parladé, deverá continuar a focar-se no olival intensivo para azeite a granel. “No início, a realidade foi mais difícil do que esperávamos, porque os preços do azeite estavam baixos, mas os preços subiram e as produções foram aumentando”, disse. Os frutos secos não estão totalmente fora de hipótese, mas Javier Parladé diz ter ainda algum receio de entrar nesta cultura, pela falta de técnicos qualificados.

Carla Aguiar (Texto)

Sara Matos/Global Imagens (Fotos)