Setor está a exportar quase metade daquilo que produz

Vendas. Vitivinicultura representa 4% do total da exportações portuguesas. As quotas para a vinha são o maior travão ao crescimento

O setor vitivinícola português tem uma vocação exportadora muito vincada. Não só vende para fora quase metade daquilo que produz, em torno dos 45%, como já representa 4% do total das exportações portuguesas.
Aqueles números foram enfatizados pelo administrador do Grupo Santander Pedro Castro e Almeida na sessão de abertura do último debate do ciclo Economia Ibérica dedicado ao setor agroalimentar. O administrador sublinhou ainda o facto de o vinho ter vindo a reforçar o peso nas vendas ao exterior, correspondendo atualmente a um terço do total das exportações de bens alimentares.
Relevante nesta tendência de crescimento sustentado das exportações é o preço. Os vinhos portugueses conseguiram superar a baixa valorização do passado, em comparação com outros concorrentes, e continuam a ganhar cotação, segundo os testemunhos dos empresários que participaram no debate.
“Neste momento, o preço médio do vinho português exportado é quase o dobro do obtido pelo vinho espanhol”, revelou o presidente do Instituto do Vinho e da Vinha (IVV). Frederico Falcão considera que, “não obstante a recuperação de terreno, os preços ainda estão abaixo dos franceses e italianos, mas de forma menos acentuada”.
“A França chegou primeiro, começou a trabalhar a marca e os mercados há muito tempo e ainda beneficia desse pioneirismo”, considera aquele responsável.
Embora a valorização dos preços seja um objetivo dos produtores portugueses, a prioridade atual é a penetração em novos mercados ou o reforço naqueles que apresentem mais potencial.
“Temos de tentar forçar a entrada em mercados onde os vinhos portugueses não sejam tão conhecidos”, considera José Oliveira da Silva, presidente da Casa Santos Lima. “O essencial é que o cliente prove vinho português”, diz, acrescentando que “a reação é positiva porque gostam do sabor e do preço, que fica aquém das expectativas relativamente a outros vinhos de qualidade semelhante”.
José Oliveira da Silva acredita que os produtores portugueses vão continuar a ter preços médios inferiores aos praticados pelos franceses.
Os Estados Unidos, em particular, e a China são apontados como mercados com muito potencial de crescimento para os vinhos portugueses, embora com diferenças substanciais, apontadas pelos empresários. Nos Estados Unidos, a procura é mais sofisticada e há uma maior apetência por vinho branco. Já na China, onde a tradição de consumo de vinho é baixa, os clientes consomem vinho por uma questão de estatuto, apreciando e valorizando pormenores como o peso da garrafa ou a estética do rótulo.
Independentemente das preferências, a tendência é para o aumento das exportações à medida que os vinhos portugueses ganham visibilidade no mercado internacional e reconhecimento com reputados prémios.
Limites à expansão da vinha
As possibilidades de expansão da produção nacional estão, todavia, limitadas no que diz respeito à plantação de novas vinhas. Abrangida por uma regulamentação comunitária restrita, a plantação de novas vinhas está sujeita a uma quota de acréscimo de 1%.
Neste ano, tal como noutros, houve mais procura para plantação do que quota disponível, tal como reconheceu o presidente do IVV. “Há uma procura muito grande neste momento para a plantação de vinha”, referiu Frederico Falcão.
Em contrapartida, o setor beneficiou de 80 milhões de euros de comparticipação ao investimento dos vitivinicultores.
Os produtores consideram que “o acréscimo anual de 1% não é suficiente para repor as vinhas que morrem, nomeadamente, por força da seca”. E reclamam da tutela alterações que tenham em conta essa situação.
Falando pelo Instituto do Vinho e da Vinha, Frederico Falcão lembrou que o sistema em causa vigora até 2030, mas é expectável que sofra uma revisão intermédia. Frederico Falcão admitiu que a natural expansão de um setor que está numa boa fase no mercado internacional acaba por ser travada por causa daquela limitação.
Outra revindicação dos agentes do setor é o reforço do controlo aos vinhos importados. Há vinho importado a granel que entra nas adegas e é misteriosamente “naturalizado” português, denunciou José Oliveira da Silva. Uma situação de concorrência desleal que já está a ter resposta do IVV, através de auditorias a adegas.
O presidente da Adega Cooperativa de Almeirim, a maior do país, apontou uma preocupação comum a muitos produtores: “As constantes promoções e feiras dos hipermercados, que descontam no preço do produtor.” Por essa razão, Manuel Madera e os restantes associados decidiram não participar mais nesse tipo de “feiras do vinho”.
À frente de uma adega cooperativa que vende 18 milhões de litros de vinho com um valor que oscila entre 15 a 20 milhões de euros, Manuel Madera referiu que “o setor cooperativo tem de apostar na gestão profissional e numa mudança de mentalidade que passe por produzir o que o mercado procura e não por levar a uva à adega, independentemente das tendências do mercado”. No caso de Almeirim, a adega fez uma aposta no vinho frisante, que se traduz em oito milhões de garrafas.