“Temos de ter uma equipa a falar castelhano e outra catalão”

A Inapa, empresa portuguesa do setor da distribuição de papel, tem 95% do seu negócio além-fronteiras. Espanha foi o seu primeiro patamar de expansão e o sucesso nesse mercado exigiu adaptações surpreendentes à realidade local. Mas a implantação no mercado espanhol continua a ser difícil para os portugueses, como reconhece um responsável da Câmara de Comércio Luso-Espanhola

 

Entrevista conduzida por António Perez Metelo

 

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Diogo Rezende é CEO da Inapa desde agosto de 2016

Diogo Rezende [D.R.], CEO da Inapa, e Aureliano Neves [A.N.], representante da Câmara de Comércio e Indústria Lus-Espanhola [CCILE], bem-vindos a esta primeira conversa sobre economia ibérica. A Inapa é, porventura, a mais internacionalizada das empresas de origem portuguesa: 95% do seu negócio está fora das nossas fronteiras. Sobre a dimensão ibérica disto – a Inapa acaba de apresentar contas -, o que é que me pode falar? Neste enquadramento ibérico, como é que está a Inapa?

D.R. – Em termos ibéricos, a faturação, no universo Inapa, representa cerca de 13%, são cerca de 106 milhões de euros.

Sim, porque está presente em oito países.

Estamos presentes em nove, na realidade, se considerarmos o Luxem-burgo como um país separado da Bélgica. Tecnicamente, são nove. Dos cerca de 900 milhões [de euros], temos perto de 13% feitos na Península Ibérica, dos quais cerca de 55% em Espanha, 45% em Portugal. Portanto, embora sendo uma empresa e um grupo de raiz portuguesa, Portugal representa já, em termos de faturação total, uma clara minoria dentro deste universo e Espanha já ultrapassou há um tempo essa nossa dimensão nacional.

Mas as contas de 2015 da Inapa, recém-publicadas, revelam que há menos produção, resultados líquidos um bocadinho abaixo, ligeiramente negativos, mas boa produção industrial, mesmo assim.

Em termos de volume caiu um bocadinho. Nós, como sabe, somos só uma parte de comércio.

Sim, distribuição de papel.

Distribuição de papel, embalagens e comunicação visual. Caiu algo, na área da distribuição de papel. Nas outras duas áreas, de embalagem e de comunicação visual, cresceu 4%. Na área de papel decresceu 4%. Como esta última área pesa mais, no seu todo, caímos um pouco No entanto, por exemplo, em Espanha tivemos uma recuperação de volume. Espanha é uma economia que está com algum dinamismo. Teve uma queda grande há uns anos atrás, no consumo de papel, mas agora está a demonstrar alguma recuperação.

Sim, eu vi as estatísticas. Efetivamente em Espanha consome-se menos papel do que há 10 anos. Como é que a CCILE acompanha e está ligada a uma empresa no espaço ibérico como a Inapa?

A.N. – Infelizmente para a economia portuguesa a Inapa é uma das poucas empresas que tem uma divulgação e uma dinamização internacional bastante grande e afirmativa. A câmara acompanha com todo o interesse e dando todo o apoio que é possível dar, nestas circunstâncias. Nomeadamente, no mercado ibérico – onde se insere a nossa atividade -, na divulgação e promoção da atividade das empresas portuguesas, neste caso em Espanha, ou das espanholas em Portugal, que é muito o nosso papel. E a Câmara de Comércio tem acompanhado, de facto, o papel de grande implantação e afirmação que tem a Inapa em Espanha. Onde, aliás, é difícil uma empresa portuguesa e os produtos portugueses imporem-se. Isso, enfim, não é propriamente um segredo. É uma coisa histórica, infelizmente para nós, que os produtos portugueses não são bem aceites em Espanha. Portanto, há uma resiliência grande quanto à aceitação dos produtos portugueses. Enfim, é outra conversa e daria outro tema. Mas a Inapa tem ultrapassado isso.

Ainda há esse sentimento.

Há muito esse sentimento! Há bastante esse sentimento e a Inapa é uma excelente exceção em que a sua marca, o seu nome tem uma grande implantação em Espanha e tem muita aceitação. Enfim, tem lutado contra isso e tem-lhe custado, com certeza absoluta, e eu sou testemunha disso. Mas, de facto, a Inapa é um belíssimo exemplo do que é a ação mais positiva possível de uma marca portuguesa em Espanha.

Diogo, o mercado, obviamente, pelos números – eu só vejo o reflexo dos números -, não parece estar fácil, no quadro europeu, para o negócio. Mas a Inapa continua, segundo julgo, a manter-se no pódio, nos três primeiros lugares numa série de países, do ponto de vista da distribuição, etc.

D.R. – Exatamente. Na área da distribuição de papel.

De onde é que lhe vem esse desempenho tão validado em termos reais na cena internacional? Quais são as forças da empresa para isso?

Isto, de facto, é uma luta diária. Nós estamos no setor da distribuição de papel, que pesa cerca de 86% do nosso volume de negócios. É um setor maduro, é um setor que tem apresentado alguma queda ao longo do tempo, cerca de 2%, 3% por ano…

O que, acumulado, acaba por ser importante.

Acumulado, ao longo dos tais dez anos de que falava, é muito. E depois, pontuado, em alguns casos (como é nomeadamente o caso de Espanha), num momento de crise forte, por quedas já de dois dígitos. Portanto, há aqui esta dificuldade. Claramente, num setor que está neste declínio, digamos assim, de mercado, o nível de eficiência a atingir, o nível de eficiência em que a empresa trabalha é algo de absolutamente-chave, por forma a criar espaço para que se possa sobreviver.

Ou seja, reduzir custos.

Portanto, a redução de custos é absolutamente essencial ao longo do tempo. E a adaptação. Quando não, se continuarmos a trabalhar numa mesma base de custos e com um volume de faturação a cair, já se sabe qual é o resultado.

E no ano de 2015 conseguiram resultados nessa matéria.

Continuámos a conseguir resultados nessa matéria. Decrescemos, em termos percentuais, a nossa base de custos um pouco mais, inclusivamente, do que a faturação, um pouco mais do que o impacto que tivemos em faturação. Obviamente que uma coisa não compensa completamente a outra, mas voltámos a decrescer, na nossa base de custos, cerca de seis milhões de euros.

Mas, infelizmente, segundo eu vi, perderam cem postos de trabalho: de 1500 para 1400.

Perdemos alguns postos de trabalho. Foi um dos custos.

Foi em Portugal ou fora?

Não. Em Portugal mantivemos o nosso número de colaboradores. Foi noutras geografias, nomeadamente, na Alemanha, onde nós faturamos um pouco mais de 50% do nosso volume de negócios e onde estamos, logicamente, sempre à procura do maior número de eficiência.

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Diogo Rezende, CEO da Inapa, e Aureliano Neves, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, foram os convidados de António Perez Metelo

Aureliano, eu provavelmente não errarei muito se disser que, para a câmara, estes últimos anos não têm sido fáceis, devido à profundidade da crise que se abateu não só em Portugal como em Espanha. Com ou sem troika – independentemente disso – é sabida a grande intervenção que houve nos bancos, em Espanha, e, portanto, a recuperação que ainda não está de vento em popa de um lado e de outro da fronteira. Como é que a câmara tem lidado com essa questão?

A.N. – Mas a incidência da crise nos tecidos empresariais não é igual.

Era disso que eu queria que me falasse.

[Não é igual] porque as empresas espanholas estavam mais capitalizadas do que as portuguesas, portanto, não eram tão dependentes da banca como as portuguesas.

E ainda estão assim, não é?

E ainda estão assim. É conhecidíssimo que as empresas e, mais propriamente, os empresários portugueses viviam numa dependência enorme em relação à banca, o que em Espanha não acontecia exatamente assim.

Sim, 30% dos capitais próprios são das empresas.

Exatamente. Os empresários, em Espanha, eram mais participativos nas empresas, no capital das empresas, no movimento das empresas do que acontecia em Portugal.

E, portanto, são muito mais autónomos. E, portanto, podem continuar a funcionar melhor, não é?

Muito mais autónomos. E a crise incidiu-lhes com menos intensidade nestas alturas. A câmara, efetivamente, não tem tido uma vida fácil. Têm-nos aparecido casos de bastante complicação, de bastante dificuldade, em que a câmara, além de compreender, tem a tendência de apoiar e de ajudar e encontrar os melhores caminhos. Mas não há dúvida nenhuma que há que desbravar. Em Portugal – isto indo ao negócio ibérico, que é exatamente aquilo a que nos dedicamos mais -, a vida das empresas espanholas é mais simples, é mais fácil. Há aceitação mais natural. O contrário é mais complicado e a câmara tem tentado ajudar as empresas e, muito mais, os empresários a que se agreguem e que, no fundo, se imponham pela qualidade em Espanha. Porque não há dúvida nenhuma de que se não forem as câmaras a fazer isso – neste caso, se não for esta câmara a fazê-lo – não há grande movimentação institucional, em Espanha, por parte das autoridades portuguesas (estas ou outras; não estou a cingir-me exatamente ao momento atual). É uma coisa atávica. De facto, não há uma divulgação, em Espanha, da qualidade dos produtos portugueses. O made in Portugal não está, de facto, implantado em Espanha, não está uma divulgação bem feita. O que, nestas alturas de crise, se sente muito mais. Portanto, isto dava a ideia de que estava a fugir um bocado à resposta mas não estou. É que nesta altura era de todo o interesse que o nosso melhor mercado estivesse já com ambiente para aceitar de bom grado e sem discutir a qualidade do que se fabrica em Portugal.

Mas não se esqueça que antes da adesão comum – que agora se recorda, dos 30 anos – dos dois países, naquele célebre dia, nos Jerónimos e no Palácio do Oriente, as trocas entre os dois países eram mínimas. E só deram o salto que deram depois da abertura europeia. Discute estes problemas com a câmara irmã hispano-portuguesa?

Exatamente. Com a Câmara Hispano-Portuguesa. Estamos, aliás, em permanente contacto.

Mas eles reconhecem essa retração?

Reconhecem absolutamente. Reco-nhecem e sentem-na, porque, de facto, há um sentimento real de que efetivamente não é compatível a aceitação dos produtos de um país no outro, em relação ao sentido inverso.

A Inapa tem uma visão, cosmopolita do negócio…

E, neste caso, ainda bem. É um bom exemplo, como eu comecei por dizer. É que a Inapa é, como há mais duas ou três, das empresas portuguesas que se impuseram pela qualidade, efetivamente.

Mas não estão só no espaço europeu.

D.R. – Não. Não estamos só no espaço europeu.

Também estão em Angola e também estão nos Estados Unidos, se não estou em erro.

Não. Estamos em Angola e estamos na Turquia. O que, realmente, nos dá um pequeno pé em três continentes diferentes: Europa, Ásia e África.

Embora a Turquia esteja em grandes dificuldades, neste momento, não é?

Curiosamente, em termos económicos, não. E em termos da evolução do nosso volume de negócios lá, têm sido muito positivos estes últimos anos.

Quais são as perspetivas? Fale-me um bocadinho mais dos diversos espaços, se é que tem várias perspetivas para espaços diferentes? Neste ano e no próximo, por exemplo.

Temos, completamente, porque a origem da Inapa é que o grupo foi–se criando por aquisições múltiplas, ao longo do tempo, assim como em Espanha também. Em Espanha, iniciámos a expansão há cerca de 25 anos num processo também de aquisição de empresas. É um mercado complicado; são vários mercados, aliás. Por exemplo, o mercado de Madrid é uma coisa, o mercado de Barcelona, para nós, é outra coisa completamente diferente.

Isso levava-me a uma outra conversa, que é os efeitos de uma eventual secessão catalã para estas coisas.

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Diogo Rezende (à esq.) revelou que 13% dos 900 milhões de euros que a Inapa fatura no mundo vêm do mercado ibérico. Aureliano Neves (ao meio) defende a promoção da ideia de que o made in Portugal é igual a qualidade

Pois. Mas só para dar uma ideia, no nosso centro de atendimento temos de ter uma equipa a falar castelhano e uma equipa dedicada a falar catalão, porque há clientes da Catalunha que admitem perfeitamente falar castelhano e outros que dizem: “Não, não. Eu quero ser atendido em catalão.” E, portanto, temos de ter pessoas para isso. Em relação ao resto, nós crescemos muito por aquisição e, portanto, [consoante] o que se nos depara em cada país, temos uma situação diferente. Demorámos bastante tempo a integrar as empresas dentro de cada país. Essa fase está ultrapassada, mas, pela sua própria origem, pelas características do país, temos situações diversas de um país para o outro. Temos países onde as margens são muito pequenas – curiosamente, a Espanha é dos países, em termos comerciais, mais agressivos que temos. Talvez a Alemanha seja o primeiro e a Espanha seja o segundo [mercado mais agressivo].

Também com grande concorrência, não é?

Com grande concorrência e onde o ser eficiente é absolutamente essencial, porque a margem bruta gerada é muito pouca. Temos países, ao contrário, onde as margens são bastante sólidas, mas depois são países que, por efeitos burocráticos ou por efeitos de custos, são extremamente difíceis de trabalhar de forma eficiente.

Está a pensar em Angola?

Não. Angola é uma coisa um bocadinho à parte. Mas, por exemplo, a Suíça ou, também, a França, na área da distribuição, são países muito caros por causa de regulamentação muito pesada. A Turquia, por exemplo, é um país onde os nossos custos, os custos de operação, são muito baixos, é um país com um enorme potencial de crescimento, um consumo per capita de papel ainda muito baixo e, portanto, olhamos para ele com grande… Tem estes problemas políticos mas…

Para si, ele é um país emergente, não é?

É claramente um país emergente, nesta área. Angola é, logicamente, um país com um problema muito específico, neste momento, que se chama obtenção de divisas para poder comprar…

Dólares, falta de dólares.

De dólares ou de euros, qualquer moeda estrangeira forte que nos permita comprar e não estar sucessivamente a aumentar a nossa exposição ao país.

Muito bem. Para a câmara, qual é o momento que se vive, atualmente, em termos associativos, em termos de aprofundamento do trabalho aqui em Portugal?

A.N. – Em termos associativos é de expectativa e, neste caso, é de boas expectativas. Estamos convencidos de que as coisas vão melhorar e, de facto, a câmara está o mais aberta, disponível e esperançada possível em que vá evoluindo a saúde e o potencial das empresas espanholas aqui em Portugal. Por outro lado, a câmara está hoje com uma diversidade e oferta de serviços aos seus sócios – desde o curso de espanhol a portuguese s que se deslocam para Espanha a informações empresariais de todo o tipo e estatísticas – que, de facto, a tornam um parceiro importantíssimo para as empresas espanholas que se tencionam instalar ou que já estão instaladas em Portugal. Aliás, as empresas espanholas vêm, da origem, com um sentido mais gregário do que as empresas portuguesas. A empresa espanhola, quando chega a Portugal, além de ir à embaixada, naturalmente, vai imediatamente à Câmara de Comércio, o que não acontece no sentido inverso. Sabe-se que o empresário português é muito independente, não se associa com facilidade e não procura este tipo de entreajuda, que sempre foi útil mas que, nos tempos que vão correndo, se impõe e de forma mais útil possível. De maneira que a câmara está o mais esperançada possível que as coisas melhorem e, por outro lado, está sempre convencida de que os empresários espanhóis contam com ela para a sua implantação no mercado português.

Diogo, espera, neste ano de 2016, voltar aos lucros?

D.R. – Isso é uma pergunta… A esperança nunca morre [risos].

Não, não. Está a trabalhar para isso. Mas há condições para isso?

O nosso orçamento claramente aponta para o regresso aos lucros. Este início de ano, também, um mercado como o alemão foi um bocadinho difícil, mas já sentimos, outra vez, a recuperação. Portanto, o nosso orçamento é voltar aos lucros em 2016 e é com isso que contamos.

Pelo que me disseram, eu julgo que não dão muita importância a isso, mas tem havido grande turbulência política de um lado e de outro da fronteira – turbulência em democracia, vá; não se pode comparar, obviamente, com aquela que reina noutras paragens. Essa indefinição política que existiu ou que existe ainda em Espanha tem influência no negócio? Sim ou não.

Nós não temos sentido. Para nós, tem uma ótima influência que haja eleições, porque a venda do papel aumenta, o que é ótimo [risos].

Portanto, se houvesse novas eleições espanholas a 26 de junho, melhorava o seu negócio em Espanha.

Lá ia mais um bocadinho de consumo de papel. Era ótimo.

 

Fotos: Sara Matos / Global Imagens